Sozinho

 

Relatadora daquele que não tem tecto nem abrigo
Aquele que não tem familia nem um único amigo
Que dorme na calçada coberto de papelão
Que muitos dias não consegue ter um pedaço de pão
Que guarda no pensamento, todo o bom momento
Que agora vive na miséria e dorme ao relento
Atormentado pela saudade que o faz chorar todo o dia
Em tempo que tinha, uma casa uma familia
De repente não tem nada, vive de esmola
De resto de comida, que sobra na cantina da escola
e no inverno, a chuva e o frio gelado
A geada que cai sobre o seu corpo molhado
Sempre com o terço e sua oração, perguntando a Deus
porque lhe largou da mão, que se foi embora
e lhe deixou sozinho, marcado na rua, sem rumo , sem destino
Como a cidade é bonita, a noite cheia de luz
mas é a escuridão e a dor que me conduz
no natal não há ceia , nem mesa cheia
Nem presente, o pai natal deixou na meia
Só sirenes, o barulho dos carros a passar
e gargalhadas daqueles que tão em casa a festejar
Um pacote de vinho, alivia a dor
Uma garrafa de bagaço para lhe dar calor
Sem perceber a vida, e sua crueldade
Destino traçado pela calamidade
Quem lhe dera ter os filhos e mulher ao seu lado
Mas foram-se embora e o deixaram abandonado
como um cachorro sem dono, rafeiro sardento
Como um castelo de areia derrubado pelo vento
Esperando pelo dia, que a morte o leve
E que no céu encontre o que na terra não teve
Hoje morri... mas a morte não senti, era disto que estava a espera, porque sozinho eu sofri.